Coisas da vida

UMA MULHER EXTRAORDINÁRIA

Há nomes que nos marcam, porque nos trazem emoções e transportam para lugares de ideias, para mim, ORIANA é um deles.

A ORIANA que descobri na infância, é o nome de uma Fada que no universo de Sofhia tem asas e o desígnio de tomar conta da floresta e dos seus habitantes mais frágeis. Descobria-a em criança, quando li “Os Contos Exemplares”.

Um dia, deslumbrada com os elogios que tecem à sua beleza, esquece-se da razão de ter asas. Nesse dia, ao esquecer o sentido da sua vida, perdeu todos os poderes.  De tropeção em tropeção, só voltou a voar, quando voltou a esquecer-se de si e arriscou a vida, por amor.

Viral agenda

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Em "direitar"

E NUM SEGUNDO, SE EVOLAM TANTOS ANOS…

O verso é de David Mourão Ferreira, e não há pensamento mais perfeito sobre a morte. Num segundo, sonhos, glórias, medos, tudo o que de bom e mau aconteceu, evapora-se, desaparece, deixando apenas, um rasto de memória em quem fica.

O que separa a vida da morte é uma linha ténue, frágil, como o é a natureza humana.

 

E, é essa fragilidade de que somos feitos, o que nos catapulta para o melhor e para o pior que há em nós.

Como advogada, aprendi cedo, que essa natureza, a nossa, é tecida de muitos fios de contradição e que sentimentos arrebatadores como a paixão ou ódio, podem transformar “gente normal” em heróis ou em criminosos.

Em 2011, em Aveiro, um avô com a neta ao colo, disparou seis tiros sobre o genro, pai da menina.

Enquanto a filha, a mãe da criança, gritava em desespero para o seu pai “Para! Para!”, a tragédia acontecia.

Correio da manhã

Aquele homem, descrito como cidadão exemplar, num segundo, acabou com uma vida, deixou a neta órfã, condenou-se a um futuro prisional e imagina-se que a uma culpa sem tamanho.

JN.pt

Pela violência das imagens captadas por telemóvel, tive dúvidas em publicá-las. Não que não estejam disponíveis na net para quem as quiser ver, mas o voyeurismo da violência é sempre de evitar.

Depois, pensei que é preciso ver, sentir, ficar triste e desarmado perante o que se passou, para percebermos como de pessoa de bem, respeitável cidadão, se passa a assassino, assim, ao premir de um gatilho.

falemossinceramente.blogspot.com

Seis tiros, seis tiros no pai da neta, no namorado de treze anos da filha, no genro antes querido, seis tiros que estraçalham brutalmente um passado familiar, social, pessoal.

Com eles, ACABOU, ACABOU, ACABOU!!! Gritou o pai, o avô, o cidadão “normal” feito assassino.

De recurso em recurso, com muitos episódios processuais pelo meio, a condenação primeiro a 20 anos de prisão, na primeira instância, acabou por ser reduzida para 16 anos no STJ.

Correio da Manhã

Uns acharão pouco, outros muito, o que sei é que o tempo prisional tem uma densidade diferente do tempo em liberdade.

Sempre que visitei pessoas presas, todos me disseram o mesmo: O tempo aqui dentro, não passa!

https://jornalggn.com.br/cronica/prisao-agendada/

O autor do crime é engenheiro, a filha juiz de direito, o genro morto a tiro, advogado. O conflito girava em torno das Responsabilidades Parentais da criança de três anos e nada faria esperar este desfecho.

Apesar do desmedido conflito processual, tratava-se afinal de gente com capacidade de racionalizar…

Uma acesa discussão numa visita do pai à criança, ordenada por um tribunal, foi a causa próxima. O que ficou para trás terá sido o ressentimento, a zanga, a incompreensão de parte a parte, incapacidade de gerir os conflitos internos e externos gerados pela separação.

Na área das relações familiares, os advogados sabem como é “fácil” passar do amor ao ódio. O terreno emocional é cheio de areias movediças, e é também papel do advogado tentar evitar que os casos se agudizem e passem dos limites.

 

Sbie.com.br

Racionalizar, relativizar, incutir nos constituintes que o maior bem para cada criança é viver num ambiente pacificado, sugerir psicoterapia se for o caso, é o melhor serviço que pode prestar-se à criança e à família.

Alimentar o litígio em processos desta natureza, onde as matérias são um verdadeiro rastilho, é uma prática, a todos os níveis, profissional e pessoal, muito condenável e que pode trazer consequências trágicas.

 

O advogado é muitas vezes o grande influenciador de comportamentos. Neste caso o facto de a  vítima ser advogado e de a  outra parte do conflito ser uma juíza, evidencia o quanto somos frágeis na nossa humanidade, capazes do melhor e do pior, não importa o que fazemos ou de onde vimos.

Á volta com um processo de Responsabilidades Parentais, uma menina ficou órfã de pai.

Um dia, alguém terá de lhe explicar, porque é que o avô matou o pai. Porquê se ambos a amavam tanto?

Num processo onde o interesse da criança é o único fim, haverá paradoxo maior do que condenar uma criança a crescer com o pai morto e o avô preso?

Estilosas e Salerosas Estilo "Quem me dera!"

“SEM NADA PARA VESTIR!” inspirado no dia a dia de qualquer mulher.

Nem sempre, nem nunca, temas sérios e pesados.

Hoje apetece-me qualquer coisa light, sem nenhum esforço de pesquisa, ou quase nenhum, e sem ser necessário usar mais do que o neurónio da futilidade.

Depois de polémicos acórdãos sobre violência doméstica, que já li na íntegra, e de outros temas dominantes, não quero mais nada, se não falar de trapos. Sim, de modelitos, de outfits, de estilo.

Com a mudança de estação vem aquela vontade de comprar roupa. Começamos a fazer contas e percebemos que com o armário” sem nada para vestir”, vêm aí tempos difíceis.

Imagem retirada de Homeorgananizer.com.br

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Seixal Ontem, Hoje e Amanhã

A SENHORA MUNDET

Mesmo que tentem convencer-me do contrário, acharei sempre que as terras são como as pessoas, com direitos adquiridos, com expectativas legítimas que passam por continuar a ter identidade.

Uma terra tem direito a ser respeitada, a não ser sujeita a plásticas à força, a não ver apagado o seu passado, a não ver deitado ao lixo o seu baú de memórias.

O que resta de um barco num rio, pode dizer mais sobre o passado, do que muitas páginas de um livro de história.

Ecomuseu Municipal do Seixal-Núcleo Naval(foto C.M.S)

As ruínas das terras são as suas rugas.  Estão ali, como prova de um tempo vivido. Às vezes, contam glórias, outras fraquezas e perdas, mas contam sempre vida.

Como todas as terras, o Seixal tem as suas ruínas, belas e imponentes, refúgio de histórias contadas e por contar que atravessam gerações, verdadeiros palácios encantados ao pôr do sol.

Diário Imobiliário

Ruínas são ruínas, dizem alguns. E defender a sua beleza é coisa que “nem lembra ao diabo!” já vi escrito numa rede social, a propósito de um comentário que fiz sobre as ruínas da fábrica Mundet.

Mas, quando entramos no Seixal vindos das “Cavaquinhas”, é impossível ficar indiferente. Do lado esquerdo, imponente, majestosa, com ares de grande senhora, a ruína da MUNDET, testemunho de um glorioso passado.

Foto retirada de Lugar do Real: Fachada Principal da Fábrica

A Mundet, fábrica de cortiça, ali nascida em 1905, tem razões de sobra para se orgulhar do seu passado.

A HISTÓRIA começa nos fins do séc. XIX quando o catalão Lourenzo Mundet, sonha construir um império, tendo cortiça como matéria prima.

Talvez poucos saibam, que a Mundet & Companhia, foi primeiro “L Mundet & Sons”. L de Lourenzo o seu fundador, que quis os seus dois filhos na firma e no negócio.

Lourenzo, escolhe N.Y para sede de um negócio pensado em mega escala, e escolhe o Seixal para o tornar realidade.

Mas, o que levou um grande homem de negócios a escolher o Seixal para instalar a fábrica mãe?

O lugar frente ao rio e aos estaleiros de onde saíram as caravelas dos descobrimentos, pode muito bem ter sido a inspiração para quem queria conquistar o mundo.

O certo é que, a proximidade do Tejo, permitiu que a fábrica tivesse o seu próprio cais de embarque e desembarque.

Foto Retirada de Lugar do Real: Barcos no Cais

A sonhada conquista, não se fez esperar. Em Portugal, e no Mundo, a Mundet multiplica-se, em fábricas e fluxos comerciais, e torna-se um verdadeiro potentado.

Ecomuseu do Seixal

No Seixal, a fábrica de onde saem folhas, discos de cortiça, rolhas para champanhe aos milhares, representa 15% da mão de obra nacional na indústria corticeira e tem maioritariamente mulheres ao seu serviço.

Mundet Oficina

Inovadora, a fábrica tem uma creche, por onde grande parte das mulheres e homens do Seixal, passaram quando eram meninos.

Conheci bem a maravilhosa e doce Teresa Canelas, responsável pelos cuidados às crianças que foi, até morrer, tratada por esses meninos homens, por “mamã”.

Creche da Mundet

Descobri, ao escrever este post, que uma mulher que se destacou na luta contra o antigo regime, foi assistente social na Mundet. Chama-se Maria Eugénia Varela Gomes, e encontrei registos da sua passagem pela fábrica em 1949.


Maria Eugénia Varela Gomes

Depois de verdadeiros tempos de ouro, a Mundet conhece, a partir de 1960, o declínio. Já sob a direcção de Joseph Mundet neto do fundador, e depois da viúva Paula Mundet , a crise instala-se e leva a melhor.

Ao mesmo tempo que o futuro da fábrica se encontra ameaçado, Paula Mundet é assassinada em 1986 na sua mansão no Estoril.

O assassinato é noticiado nos jornais, Paula terá sido morta por um jovem amante e depois cortada, por este, em pedaços.

Os trabalhadores não conseguem impedir o encerramento da fábrica que se dá em 1988.

Mundet

E agora chegam notícias. E agora a Senhora Mundet património industrial e património de afectos das gentes do Seixal, parece ter os dias contados.

Vai ali nascer um hotel. A indústria dos tempos modernos é o turismo. Vendemos sol, cultura monumental e gastronómica, como outrora vendíamos cortiça.

Mas será que transformar património em hotéis, iguais a tantos outros, é a solução?

 Não tenho nada contra hotéis, há muito bons exemplos de antigas fábricas transformadas em hotéis que fazem a ponte entre o passado e o futuro, sem destruir ou esquecer o primeiro.

A antiga fábrica de chocolates Avienense, é hoje um hotel de quatro estrelas ****, um hotel temático e perfumado com aroma a chocolate que soube manter intacta a sua traça original.

Fábrica da Avianense (Antes e Depois)

Há autarquias que fizeram de antigas fábricas pólos de actividades académicas, cientificas e artísticas, como é o caso da Fábrica da Pólvora, em Barcarena, que mantém intacta a arquitectura e promove o conhecimento da sua história.

Fábrica da Pólvora, Barcarena

Como sou uma sonhadora, imaginei, na Mundet, um espaço assim, ou um hotel temático. Fachada preservada. Cortiça como elemento decorativo, por excelência. Decoração industrial. Quartos ao estilo de loft, aproveitando aquelas janelas gigantes em cima do rio. Fotos antigas, da fábrica, a preto e branco, preservando e divulgando o que é nosso.

Mundet

Mas, afinal o que vai acontecer à Mundet ?

A informação é oficial “procurando preservar o que de melhor temos – a autenticidade de um território único”, como se pode verificar com a adjudicação em dezembro último do primeiro empreendimento turístico de 4 estrelas da frente ribeirinha – o Hotel Mundet, um empreendimento turístico com 84 apartamentos, subordinado ao tema da cortiça, pela memória do espaço em que se insere, que terá um prazo de execução de 20 meses e um custo estimado de cerca de 7 539 000,00€”. “

Daqui a meses, as ruínas da Mundet e a sua imponente fachada, as memórias de glórias, de lutas e de derrotas, que elas encerram, vão ter esta cara.

Novo Hotel Mundet

É com esta imagem que termino este post, sem mais palavras, deixo-a a quem queira comentar.

Coisas da vida, Em "direitar"

ABUSO DE CRIANÇAS: SÓ FALAR JÁ DÓI

Há temas tão feios, tão pesados, que o melhor seria nem falar deles, simplesmente esquecer que existem.

Se falo, não é por Voyeurismo jornalístico, é porque é preciso que se saiba que acontecem, que existem e que não podemos fechar os olhos.

De todos os abusos, os piores, são os abusos de crianças.

Abusar de uma criança é roubar-lhe o ser criança, é rasgar-lhe a inocência, é um atentado contra a humanidade.

Cada vez que uma criança é abusada, é a nossa humanidade que é abusada.

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De "Coração"

CASA, UMA PALAVRA REDONDA QUE PODE SER QUENTE

As palavras têm formas e transmitem sensações que vão directas ao CORAÇÃO.

“CASA “é uma palavra redonda, o C de casa não tem arestas é C de calor, os As são de amor e de aconchego e têm a forma de um telhado, e o S é o caminho que nos leva de volta.

Exclusive review: Soho Farmhouse no Pinterest

Para mim, uma casa é isso tudo, é também o lugar do encontro total, onde posso ser eu sem máscaras, onde posso criar, dar cor, povoar de cheiros bons saídos da cozinha, ou de um ramo de alecrim posto numa jarra.

De manhã, o cheiro das torradas e café, é o cheiro da casa a acordar. Abrem-se persianas, entra de novo luz, a casa espreguiça-se nos lençóis esticados.

Casa com terraço sobre o Tejo Alojamento Local (decorada por mim)

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Coisas da vida, Em "direitar"

RACISMO:  UM NÃO TEMA que é tema do dia

Em pleno Séc. XXI depois de tantas lições da história, termos de falar sobre cor de pele e discriminação, causa perplexidade e desgosto.

Muitos de nós, inspirados pela expressão de Luther King, temos um sonho, de um dia este tema, ser não tema, e não passar pela cabeça de ninguém, falar sobre ele como tema do dia.

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Seixal Ontem, Hoje e Amanhã

Seixal Real (parte II)

Para onde vão os reis?

Quem leu a primeira parte da história da chegada por rio, da rainha D.  Amélia e do rei D. Carlos ao Seixal, sabe que ficou por contar o que os fez desembarcar no Cais da Ponte no dia 5 de Julho de 1892.

Estava um calor abrasador, depois dos cumprimentos, do desembarque, da chuva de pétalas aos reis, os carros aguardavam para seguir viagem.

Para onde iria tão ilustre comitiva quase chegada a hora de almoço?

papatrilhos.com

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Seixal Ontem, Hoje e Amanhã

Á PROCURA DO JARDIM DESAPARECIDO

Todos os jardins têm uma alma secreta, tecida a partir dos sonhos das crianças que neles brincaram. Crianças e jardins deviam ser inseparáveis porque só as crianças veem os tesouros, as flores mais baixas, as pedrinhas que brilham no chão, um pauzinho de gelado esquecido. Só as crianças podem colher flores e pisar a relva, quando ainda não sabem ler “é proibido”.

Para as crianças, dar pão aos patos, pode ser uma das coisas mais importantes do dia. Ao sábado e ao domingo, acordam, muitas vezes, a dizer: “- é hoje que vamos dar pão aos patos?”.

Imagem retirada daqui: http://opirolitodoseixal.blogspot.com/

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Seixal Ontem, Hoje e Amanhã

Seixal Real

E se num dia de calor tivessem desembarcado no cais do Seixal, um rei, uma rainha e o seu séquito, esperados por barcos engalanados no rio, senhoras enchapeladas, meninas e meninos em cordão a atirar pétalas de rosa, com banda filarmónica, vivas aos reis, tudo envolto num ar de madrepérola?

Será este o princípio de uma história ou será a própria História? O que posso dizer é que a história ou História que vou contar já foi contada por um outro, na primeira pessoa, jornalista, escritor, que a viveu, escreveu e publicou na “Revista Illustrada”.

Procurava eu uma outra coisa, e de repente, a palavra Seixal. Saída do emaranhado de palavras de uma página.

Seixal, é uma palavra que esteja onde estiver, nunca me passará despercebida. Sou uma alma aprisionada por esse amor a uma terra, mesmo que pareça ridícula e piegas, sou assim.

Marginal, Seixal

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