Mesmo que tentem convencer-me do contrário, acharei sempre que as terras são como as pessoas, com direitos adquiridos, com expectativas legítimas que passam por continuar a ter identidade.
Uma terra tem direito a ser respeitada, a não ser sujeita a plásticas à força, a não ver apagado o seu passado, a não ver deitado ao lixo o seu baú de memórias.
O que resta de um barco num rio, pode dizer mais sobre o passado, do que muitas páginas de um livro de história.

Ecomuseu Municipal do Seixal-Núcleo Naval(foto C.M.S)
As ruínas das terras são as suas rugas. Estão ali, como prova de um tempo vivido. Às vezes, contam glórias, outras fraquezas e perdas, mas contam sempre vida.
Como todas as terras, o Seixal tem as suas ruínas, belas e imponentes, refúgio de histórias contadas e por contar que atravessam gerações, verdadeiros palácios encantados ao pôr do sol.

Diário Imobiliário
Ruínas são ruínas, dizem alguns. E defender a sua beleza é coisa que “nem lembra ao diabo!” já vi escrito numa rede social, a propósito de um comentário que fiz sobre as ruínas da fábrica Mundet.
Mas, quando entramos no Seixal vindos das “Cavaquinhas”, é impossível ficar indiferente. Do lado esquerdo, imponente, majestosa, com ares de grande senhora, a ruína da MUNDET, testemunho de um glorioso passado.

A Mundet, fábrica de cortiça, ali nascida em 1905, tem razões de sobra para se orgulhar do seu passado.
A HISTÓRIA começa nos fins do séc. XIX quando o catalão Lourenzo Mundet, sonha construir um império, tendo cortiça como matéria prima.
Talvez poucos saibam, que a Mundet & Companhia, foi primeiro “L Mundet & Sons”. L de Lourenzo o seu fundador, que quis os seus dois filhos na firma e no negócio.
Lourenzo, escolhe N.Y para sede de um negócio pensado em mega escala, e escolhe o Seixal para o tornar realidade.
Mas, o que levou um grande homem de negócios a escolher o Seixal para instalar a fábrica mãe?
O lugar frente ao rio e aos estaleiros de onde saíram as caravelas dos descobrimentos, pode muito bem ter sido a inspiração para quem queria conquistar o mundo.
O certo é que, a proximidade do Tejo, permitiu que a fábrica tivesse o seu próprio cais de embarque e desembarque.

A sonhada conquista, não se fez esperar. Em Portugal, e no Mundo, a Mundet multiplica-se, em fábricas e fluxos comerciais, e torna-se um verdadeiro potentado.

Ecomuseu do Seixal
No Seixal, a fábrica de onde saem folhas, discos de cortiça, rolhas para champanhe aos milhares, representa 15% da mão de obra nacional na indústria corticeira e tem maioritariamente mulheres ao seu serviço.

Inovadora, a fábrica tem uma creche, por onde grande parte das mulheres e homens do Seixal, passaram quando eram meninos.
Conheci bem a maravilhosa e doce Teresa Canelas, responsável pelos cuidados às crianças que foi, até morrer, tratada por esses meninos homens, por “mamã”.

Descobri, ao escrever este post, que uma mulher que se destacou na luta contra o antigo regime, foi assistente social na Mundet. Chama-se Maria Eugénia Varela Gomes, e encontrei registos da sua passagem pela fábrica em 1949.
Depois de verdadeiros tempos de ouro, a Mundet conhece, a partir de 1960, o declínio. Já sob a direcção de Joseph Mundet neto do fundador, e depois da viúva Paula Mundet , a crise instala-se e leva a melhor.
Ao mesmo tempo que o futuro da fábrica se encontra ameaçado, Paula Mundet é assassinada em 1986 na sua mansão no Estoril.
O assassinato é noticiado nos jornais, Paula terá sido morta por um jovem amante e depois cortada, por este, em pedaços.
Os trabalhadores não conseguem impedir o encerramento da fábrica que se dá em 1988.

E agora chegam notícias. E agora a Senhora Mundet património industrial e património de afectos das gentes do Seixal, parece ter os dias contados.
Vai ali nascer um hotel. A indústria dos tempos modernos é o turismo. Vendemos sol, cultura monumental e gastronómica, como outrora vendíamos cortiça.
Mas será que transformar património em hotéis, iguais a tantos outros, é a solução?
Não tenho nada contra hotéis, há muito bons exemplos de antigas fábricas transformadas em hotéis que fazem a ponte entre o passado e o futuro, sem destruir ou esquecer o primeiro.
A antiga fábrica de chocolates Avienense, é hoje um hotel de quatro estrelas ****, um hotel temático e perfumado com aroma a chocolate que soube manter intacta a sua traça original.

Há autarquias que fizeram de antigas fábricas pólos de actividades académicas, cientificas e artísticas, como é o caso da Fábrica da Pólvora, em Barcarena, que mantém intacta a arquitectura e promove o conhecimento da sua história.

Como sou uma sonhadora, imaginei, na Mundet, um espaço assim, ou um hotel temático. Fachada preservada. Cortiça como elemento decorativo, por excelência. Decoração industrial. Quartos ao estilo de loft, aproveitando aquelas janelas gigantes em cima do rio. Fotos antigas, da fábrica, a preto e branco, preservando e divulgando o que é nosso.

Mundet
Mas, afinal o que vai acontecer à Mundet ?
A informação é oficial “procurando preservar o que de melhor temos – a autenticidade de um território único”, como se pode verificar com a adjudicação em dezembro último do primeiro empreendimento turístico de 4 estrelas da frente ribeirinha – o Hotel Mundet, um empreendimento turístico com 84 apartamentos, subordinado ao tema da cortiça, pela memória do espaço em que se insere, que terá um prazo de execução de 20 meses e um custo estimado de cerca de 7 539 000,00€”. “
Daqui a meses, as ruínas da Mundet e a sua imponente fachada, as memórias de glórias, de lutas e de derrotas, que elas encerram, vão ter esta cara.

Novo Hotel Mundet
É com esta imagem que termino este post, sem mais palavras, deixo-a a quem queira comentar.